Mostra de Laura Cattani e Munir Klamt parte de uma descoberta no Museu da Polícia, em Porto Alegre, para investigar as relações entre arte, humor, ambiguidade e pensamento
Uma roleta feita com roda de bicicleta encontrada no Museu da Polícia, em Porto Alegre, utilizada em jogos de azar clandestinos, deu origem à investigação que aproxima o duo artístico Ío, formado por Laura Cattani e Munir Klamt, do pensamento de Marcel Duchamp. A semelhança visual com Roue de Bicyclette, obra criada pelo artista francês em 1913, despertou o interesse da dupla e se tornou o ponto de partida para a exposição Filha Secreta, que será apresentada no V744atelier, em Porto Alegre, com abertura marcada para 14 de novembro, às 17h.
Reunindo exclusivamente obras de Laura Cattani e Munir Klamt, a mostra parte de uma leitura própria do pensamento duchampiano, com atenção especial ao humor, ao erotismo e à ambiguidade como formas de produzir conhecimento e ampliar as possibilidades de leitura de uma obra. O voyeurismo também atravessa várias obras, que exploram a posição de quem olha diante do que permanece oculto e as relações entre olhar, tabu e transgressão.
Em vez de uma homenagem convencional, a dupla propõe um diálogo entre sua própria produção e os procedimentos de um dos nomes fundamentais da história da arte moderna, retomando projetos não realizados de Duchamp e algumas de suas obras menos conhecidas. Uma das obras apresentadas é uma pintura mediúnica, realizada por um médium espírita contratado pela dupla para incorporar Duchamp e produzir a pintura.
Para Laura e Munir, o humor opera por meio de uma ruptura: uma situação constrói uma expectativa, até que um detalhe desloca a perspectiva e altera a narrativa. É nessa inversão, em que sentidos aparentemente opostos podem coexistir, que se encontra parte da potência da obra de Duchamp. A relação entre o dito e o não dito, o equívoco e a multiplicidade de interpretações também aproxima essa investigação da psicanálise e dos mecanismos de construção da piada.
“Ainda que o português ofereça menos jogos de palavras do que o francês, o conceito de ambiguidade e metamorfose das formas é central para nós”, afirma a dupla. A língua francesa, com suas possibilidades fonéticas e semânticas, foi um campo fértil para os jogos de linguagem explorados por Duchamp. A exposição parte desse interesse para investigar como uma obra pode permanecer aberta e despertar sentidos diferentes conforme o olhar de cada espectador.
Um diálogo entre processos criativos
A pesquisa de Laura e Munir se volta às referências, aos materiais e às tensões que atravessam o processo criativo de Duchamp, em busca de aproximações com as questões que orientam a pesquisa de Ío. Esse diálogo se concretiza nas obras da dupla, que retomam procedimentos e ideias duchampianas a partir de sua própria experiência e poética. O título da exposição condensa essa aproximação e introduz uma de suas provocações: Filha Secreta alude à artista Yo Savy (Yvonne Serré), filha de Duchamp que ele só conheceu quando adulta.
A mostra marca um recorte singular na trajetória de Ío e dá continuidade à disposição da dupla para experimentar diferentes linguagens e campos de investigação. “Nossa trajetória é marcada por esse movimento pendular: quando um trabalho adquire uma determinada dimensão ou densidade, sentimos a necessidade de explorar outros campos para, futuramente, retornar com um novo olhar”, explica Laura Cattani.
Uma trajetória de experimentação
Ativa desde 2003, Ío desenvolve uma pesquisa que transita por desenho, fotografia, vídeo, instalação e tecnologias digitais, conectando arte contemporânea, ciência, natureza, astronomia, biologia e mitologia. Laura Cattani e Munir Klamt são doutores em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e construíram uma trajetória marcada pela experimentação de linguagens e pela investigação das relações entre imagem, matéria e conhecimento.
Entre os trabalhos da dupla estão a exposição Aporia (2015), integrante do projeto RS Contemporâneo, com curadoria de Julia Rebouças e vencedora do Prêmio Especial do Júri no IX Prêmio Açorianos de Artes; a instalação Princípios do Mundo, selecionada em edital promovido pelo espaço cultural Auroras, em São Paulo, em 2019; e Tempus Fugit – Galeria em Casa (2021), projeto de arte digital realizado com recursos de modelagem 3D e realidade aumentada, vencedor do XV Prêmio Açorianos de Artes Plásticas na categoria Destaque em Ações de Inovação e Difusão Independente.
A atuação de Laura e Munir também se estende a projetos de pesquisa e articulação cultural desenvolvidos pelo Instituto Cultural Torus. Entre as iniciativas recentes estão ISTMO – Circuitos Criativos, voltado à ampliação da circulação e das conexões da produção artística do Rio Grande do Sul com outros circuitos brasileiros e sul-americanos, e Declinações Magnéticas, pesquisa que aproxima arte, ciência e imaginação para investigar a percepção dos campos magnéticos. A exposição no V744atelier dá continuidade a esse percurso de experimentação, agora concentrado no encontro com Duchamp e nas possibilidades que surgem quando uma imagem, um objeto ou uma ideia deixam de significar apenas aquilo que aparentam ser.
Filha Secreta fica aberta à vistiação até até 21 de janeiro de 2027 (detalhes no "Serviço"). A entrada é franca.
SERVIÇO:
O quê: Filha Secreta - exposição de Ío, duo artístico formado por Laura Cattani e Munir Klamt, com texto crítico de Chico Soll.
Onde: V744atelier, Rua Visconde do Rio Branco, 744, Bairro Floresta, Porto Alegre-RS.
Abertura: Dia 14 de novembro de 2026, sábado, 17h
Visitação: de 16/11 até 22/01, quartas, quintas e sextas das 14 às 17h. Recesso de 13/12 até 05/01. Outros dias e/ou horários agendar pelo DM do @v744atelier.
Quanto: Entrada franca
Classificação indicativa: 14 anos
Conversa com os artistas: 15/01/2027, sexta-feira, às 18h30min.
Silvia Abreu