A arte de ver arte: por que ainda valorizamos mais as exposições no exterior?

  • Cultura
  • 27/10/2026 - 22:53
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Com o crescimento do público nos museus brasileiros e a chegada de grandes exposições internacionais, o prestígio de ver arte dentro e fora do país entra em discussão

Por que sentimos orgulho de dizer que vimos uma exposição no Louvre, mas nem sempre demonstramos o mesmo entusiasmo quando essas obras chegam aos nossos museus?

Ver Monet em Paris é uma experiência especial. Mas encontrá-lo em São Paulo também deveria ser motivo de orgulho. A chegada de grandes exposições internacionais ao Brasil convida a olhar para um comportamento curioso: a tendência de atribuir mais prestígio às experiências culturais vividas no exterior, mesmo quando temos a oportunidade de conhecer obras de grandes artistas por aqui.

E os números mostram que o brasileiro está cada vez mais interessado em arte. Segundo a pesquisa Hábitos Culturais 2026, da Fundação Itaú, realizada com apoio técnico do Datafolha, a parcela de entrevistados que visitaram exposições de arte passou de 27% para 31% em um ano. A frequência a museus também cresceu, de 16% para 21%.

O interesse aparece nas bilheterias. Em 2025, A Ecologia de Monet tornou-se a exposição mais visitada da história do MASP, reunindo quase meio milhão de pessoas. Em 2018, o Brasil recebeu uma grande mostra de Jean-Michel Basquiat, com obras da Coleção Mugrabi, que passou por São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Atualmente, a exposição Miró: Mestre das Formas, no Museu de Arte Brasileira da FAAP, em São Paulo, já ultrapassou 120 mil visitantes e teve sua temporada prorrogada até 13 de dezembro de 2026.

Quem passou pela Pinacoteca entre 2014 e 2015 talvez ainda se lembre das filas para conhecer as esculturas hiper-realistas de Ron Mueck. A exposição do artista reuniu mais de 402 mil visitantes e bateu o recorde de público do museu na época. Um dado chama ainda mais a atenção: segundo a instituição, 80% dos visitantes nunca haviam estado na Pinacoteca. Para milhares de pessoas, o encontro com aquelas esculturas foi também a descoberta de um museu.

Outro exemplo é a japonesa Yayoi Kusama, a famosa “artista das bolinhas”, que morreu em agosto de 2026, aos 97 anos. Conhecida por suas instalações imersivas e pelas abóboras cobertas de pontos, a artista conquistou multidões também no Brasil. Entre 2013 e 2014, sua exposição Obsessão Infinita reuniu cerca de 1,7 milhão de visitantes em três capitais brasileiras: Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. Só no Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista, mais de 520 mil pessoas tiveram a oportunidade de conhecer de perto seu trabalho.

"Quando penso em Yayoi Kusama, por exemplo, fico feliz de lembrar que milhares de brasileiros puderam conhecer de perto o trabalho dessa artista tão extraordinária enquanto ela ainda estava viva. Não foi preciso viajar para o Japão, para Paris ou Nova York. Tivemos essa oportunidade aqui, nos nossos museus. Acho que deveríamos sentir mais orgulho disso. Receber uma grande exposição internacional no Brasil é também uma forma de valorizar nosso público e nossas instituições culturais", comenta Márcia Felmanas, diretora da Galeria Contempo.

E o calendário dos próximos meses promete novos encontros com nomes importantes da arte mundial. Ainda em 2026, São Paulo recebe exposições de Nam June Paik, pioneiro da videoarte, na Pinacoteca, e Jesús Soto, referência da arte cinética, no MASP. Para 2027, o museu da Avenida Paulista prepara uma exposição dedicada a Vincent van Gogh, dentro do ciclo Histórias da Loucura. A Pinacoteca também anunciou uma grande retrospectiva de Keith Haring, um dos nomes mais conhecidos da arte urbana norte-americana dos anos 1980, com abertura prevista para novembro de 2027.

Mas não são apenas os grandes nomes internacionais que merecem entrar no roteiro cultural. Em São Paulo, galerias também aproximam o público da produção contemporânea brasileira, muitas vezes com acesso gratuito. É o caso da exposição FIGURAE: pluralis nominis figura, em cartaz de 3 a 31 de outubro na Galeria Contempo, no Jardim América. Com curadoria de Fabrício Reiner, a mostra reúne 13 obras de sete artistas — Arthur Arnold, Bruno Neves, Emika Takaki, Evandro Angerami, Isabela Vatavuk, Uéslei Fagundes e Vanessa Midori — que exploram diferentes caminhos da pintura, entre figuração e abstração.

"Percebo que o brasileiro está começando a olhar para a arte que acontece aqui com mais interesse e curiosidade. Durante muito tempo, parecia que era preciso viajar para ter uma experiência cultural importante. Hoje, temos museus com programações internacionais, galerias que apresentam artistas de diferentes gerações e um público cada vez mais disposto a descobrir o que está perto. Acho que essa mudança também tem a ver com pertencimento. Quando valorizamos uma exposição no Brasil, estamos reconhecendo a importância dos nossos espaços culturais e dos artistas que fazem parte deles", comenta Mônica Felmanas, da Galeria ProArte.

Para além dos recordes e das novas exposições, há uma discussão de comportamento: por que uma experiência cultural parece ganhar outro valor quando acontece fora do país? A valorização dos museus brasileiros também passa pela formação de novos públicos, pelo reconhecimento das instituições e pela descoberta de artistas que estão produzindo aqui.

Entre grandes exposições internacionais, museus cada vez mais frequentados e galerias que abrem espaço para novas gerações de artistas, o Brasil vem construindo uma relação mais próxima com a arte. Um movimento que não diminui o encanto de visitar o Louvre ou o MoMA, mas nos convida a reconhecer que algumas das experiências culturais mais interessantes também podem estar a poucos quilômetros de casa.

Fotos obras: Ron Mueck na Pinacoteca, Yayoi Kusama, exposição Obsessão Infinita, no Instituto Tomie Ohtake, Arthur Arnold_ A Ideologia da Impotência em tempos de porno-chanchada óleo sobre tela em cartaz na Galeria Contempo