Animais Aberdeen Angus criados exclusivamente a pasto, com acompanhamento veterinário e seleção genética, foram destaque na degustação oferecida pela SMartins durante a 100ª Expofeira de Pelotas.
“Nunca vi marmoreio assim em costela!” Foi um dos comentários de quem participou dos churrascos oferecidos pela SMartins Reprodução Animal durante a 100ª Expofeira de Pelotas, realizada de 5 a 12 de outubro de 2026. Entre elogios à suculência e ao sabor, clientes e amigos puderam degustar o resultado de anos de trabalho da equipe de inseminação artificial.
Os almoços descontraídos, realizados em frente à sede da empresa, no Parque de Exposições Ildefonso Simões Lopes, serviram cortes especiais de Aberdeen Angus provenientes da Estância Refúgio, em Pedro Osório, no Rio Grande do Sul. Os novilhos tinham entre 20 e 24 meses, peso vivo superior a 600 kg e apresentaram rendimento de carcaça de 58%, confirmou o veterinário Silvio Martins.
A carne chamou a atenção pelo marmoreio, nome dado à gordura entremeada nas fibras musculares, característica valorizada pela contribuição ao sabor e à suculência. Alguns cortes diferenciados, segundo os veterinários responsáveis, dificilmente são encontrados nos açougues e supermercados brasileiros, sendo comercializados em mercados especializados, restaurantes conceituados ou destinados à exportação.
Mas o que é necessário para produzir uma carne com essas características?
Uma carne que começa a ser produzida três anos antes
Para o médico-veterinário Luciano Victora, responsável pelo acompanhamento da Estância Refúgio há 16 anos, o resultado começa muito antes do nascimento do animal.
“Isso iniciou praticamente três anos atrás, com a escolha dos touros e vacas melhoradores. É feita a inseminação, tem que esperar nove meses de gestação e mais dois anos para chegar num boi nesse estágio.” A escolha genética é apenas o primeiro passo. O veterinário explica que a nutrição da vaca durante a gestação influencia o desenvolvimento muscular e a formação dos tecidos que vão determinar as características futuras do animal.
“Uma das coisas principais é a alimentação. A vaca tem que ser bem nutrida para desenvolver fibras musculares e fibras de gordura. Tudo começa dentro do útero da vaca.” Depois do nascimento, o trabalho continua com alimentação adequada, sanidade e manejo. No caso dos animais servidos na Expofeira, todo esse desenvolvimento aconteceu exclusivamente a pasto, sem utilização de ração. Luciano detalha o sistema: depois do desmame, os terneiros passam o primeiro inverno em pastagem de azevém, seguem para pastagens perenes no verão e retornam ao azevém no segundo inverno. O objetivo é manter ganhos de peso consistentes ao longo do desenvolvimento, chegando a cerca de 700 a 800 gramas por dia durante o verão. “Se não tiver uma alimentação sempre ganhando, não chega nisso aí nunca, não faz marmoreio e não dá a qualidade de carne que a gente espera”, explica.
O segredo não está apenas na escolha do touro
A inseminação artificial permite utilizar reprodutores selecionados por características específicas, mas Luciano chama a atenção para um aspecto frequentemente negligenciado: a importância das matrizes. “O pessoal, na maioria das vezes, pensa muito no touro, em escolher touros melhoradores, mas esquece que a vaca entra, teoricamente, com 50% da genética. No meu ponto de vista, a influência dela é muito maior, porque ela tem que gestar e parir um terneiro. Além disso, para desmamar um terneiro pesado, tem que ser uma vaca boa produtora de leite.”
Na Estância Refúgio, a seleção das fêmeas é tão importante quanto a dos reprodutores. O veterinário explica que o processo começa com o conhecimento das características do rebanho e a identificação dos pontos que precisam ser melhorados. Se as matrizes apresentam deficiência de marmoreio, deposição de gordura ou área de lombo, por exemplo, o profissional busca touros que possam contribuir geneticamente para essas características. A inseminação artificial facilita esse trabalho ao oferecer acesso a catálogos de reprodutores nacionais e internacionais, com avaliações que orientam a escolha conforme os objetivos de produção.
“Tem que conhecer as fêmeas e saber aonde quer chegar. Só assim se melhora o rebanho. Não é de um ano para outro que se faz isso. Tem que ter persistência e estar sempre tentando melhorar.” É justamente esse trabalho contínuo que explica os resultados apresentados pela estância depois de 16 anos de seleção.
Como a IATF acelerou o melhoramento genético
Outra evolução importante foi a disseminação da inseminação artificial em tempo fixo (IATF), técnica utilizada pela equipe da SMartins para organizar a reprodução do rebanho.
Luciano lembra que, antes da popularização da IATF, o processo de inseminação era mais limitado e dependia da observação do cio, dificultando principalmente o trabalho com vacas paridas. “A técnica hoje facilitou muito isso e acelerou muito esse processo de melhoramento. Com a IATF, se consegue inseminar a vaca parida. Então melhorou muito a velocidade de seleção e de chegar em determinada característica que a gente precisa.”
O procedimento é realizado conforme um protocolo hormonal que permite programar a inseminação. No sistema utilizado pela equipe, são necessários três manejos em dez dias: no dia zero, no oitavo e no décimo dia, quando ocorre a inseminação. O veterinário explica que as vacas paridas podem ingressar no protocolo aproximadamente 40 a 45 dias após o parto, desde que apresentem condição corporal adequada, com escore igual ou superior a três, conforme avaliação profissional.
Mais de 70% de prenhez na primeira IATF
Os resultados da Estância Refúgio também demonstram a eficiência alcançada no manejo reprodutivo.
Segundo Luciano, no ciclo anterior à Expofeira de 2026, 813 vacas foram submetidas à IATF e alcançaram 72% de prenhez, resultado confirmado por ultrassonografia 30 dias após a inseminação. O índice supera a faixa de 50% a 60% mencionada pelo veterinário como resultado comum de uma primeira inseminação. Ele explica que o desempenho melhora conforme são selecionadas matrizes mais férteis e aperfeiçoados os cuidados com o rebanho. Em determinadas categorias, as vacas que não ficaram prenhas podem passar por um novo protocolo de inseminação, chamado ressincronização. O uso de touros para repasse também contribui para elevar a taxa final de gestação, que, segundo Luciano, pode alcançar aproximadamente de 90% a 92%.
Da genética ao mercado de carnes premium
Além da produção comercial de novilhos para abate, a Estância Refúgio mantém um plantel selecionado de matrizes para produção de touros destinados ao uso na própria propriedade e à comercialização. O objetivo principal, entretanto, é produzir animais de corte com qualidade diferenciada e continuar avançando na precocidade, reduzindo gradualmente o tempo necessário para alcançar o padrão desejado. A experiência demonstra como a combinação de genética, alimentação, manejo e assistência veterinária pode agregar valor à produção pecuária. O marmoreio observado nos cortes servidos na Expofeira é um resultado visível deste investimento de longo prazo. Para Silvio Martins, entre os pioneiros na inseminação artificial no sul do Rio Grande do Sul, a degustação foi uma oportunidade de apresentar aos clientes, de forma prática, o potencial das tecnologias reprodutivas utilizadas pela equipe. E ninguém melhor para assar o churrasco do que quem acompanhou todo esse processo. Luciano Victora assumiu a churrasqueira e, depois de explicar os cuidados necessários para produzir aquela carne, também fez sua avaliação sobre o resultado.
“Bota bom nisso! Tá bom!”, respondeu, entre risadas, ao ser perguntado se o churrasco estava saboroso.
Fonte Roberta Martins, textos e imagens