Chico Baldini abre a exposição Te Espero no Quarto nesta quinta-feira (15/10) em Porto Alegre

  • Cultura
  • 13/10/2026 - 14:52
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As obras inéditas, todas em preto e branco, foram criadas com exclusividade para a mostra, que tem curadoria de Jovani Bórttoncéllo. Criados especialmente para a exposição, os trabalhos de Chico Baldini partem das histórias de uma casa concebida para a vida familiar de seu construtor, proprietário de um cabaré e de um cassino. O artista recolhe uma atmosfera de outros tempos e encontra, nela, personagens que traz à imagem.

Eles surgem entre cores e sombras. Seus corpos se aproximam e se atravessam; olhos, penas e gestos passam de uma figura a outra. Os naipes atravessam a cena como sinais de um jogo ainda em curso. O pavão aparece inteiro ou disperso entre os personagens. Nele, o desejo de olhar e de ser desejado encontra forma.

E assim que explica o curador sobre a exposição:

“Uma luz escapa por baixo da porta. Do outro lado, há um rumor quase reconhecível. Talvez alguém esteja chegando. Talvez a noite conserve o som de passos dados há muito tempo. Um nome encosta na boca e permanece ali.

Na fresta, a luz respira. A mão se aproxima da maçaneta, mas ainda não a toca. Quem espera em Te espero no quarto? Quem é esperado? A frase conserva sua pergunta mesmo depois que a atravessamos. Lá dentro, encontramos trabalhos criados por Chico Baldini especialmente para este espaço. Neles, o artista recolhe uma atmosfera vista e escutada em outros tempos: a luz de um salão, vozes que se misturam, histórias que passaram de pessoa a pessoa. As histórias que chegam a Chico, já transformadas pela memória, entrelaçam a intimidade dessa residência à trajetória de seu construtor, proprietário de um cabaré e de um cassino. Nos naipes e no pavão, ele encontra sinais que ligam seus personagens a esse passado. Percebe, antes de nós, as figuras que habitavam esses fragmentos e as traz à vista como quem acende a luz em um lugar onde alguém já estava. Entre cores e sombras, os personagens se revelam devagar. Seus corpos se aproximam, sobrepõem-se; um gesto começa em uma figura e parece continuar na seguinte. O humano encontra o animal. Temos a sensação de ter entrado em uma cena que seguirá acontecendo quando sairmos. Um corpo se inclina. Outro permanece perto. Entre os dois, a distância aprende a temperatura da pele. Os naipes reaparecem como sinais de um jogo que a casa ainda guarda. Uma carta muda de mãos; uma história encontra outro caminho. O pavão circula entre os personagens, inteiro ou disperso em penas, olhos, roupas e extensões dos corpos. Nele, ganha forma o desejo que habita esses espaços: olhar, ser visto, ser desejado. Seus muitos olhos parecem conhecer a casa melhor do que nós.

Há um toque que demora mesmo quando não acontece. A noite guarda o lugar exato onde ele poderia ter sido. Aos poucos, o rumor dos salões se afasta. No quarto, restam as presenças que Chico reconheceu naquela atmosfera. A luz mostra apenas parte de seus rostos. O restante permanece na sombra. Há uma porta. A luz vem de dentro.

Entramos para saber quem nos espera. Quando enfim vemos os personagens, descobrimos que eles já nos viram chegar. À medida que as figuras se revelam, seus olhares passam a acompanhar o nosso. Temos a impressão de entrar em uma história que já acontecia antes de chegarmos e que continuará depois de sairmos”.

Sobre Chico Baldini

Chico Baldini (1976, Porto Alegre, RS) é artista visual. Graduado em Publicidade e Propaganda pela UFRGS, estudou desenho e pintura na Parsons School of Design, em Nova Iorque, e no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Atuou por mais de duas décadas como ilustrador e diretor criativo, período em que liderou a W3haus, uma das maiores agências digitais independentes do Brasil. Paralelamente, manteve uma prática contínua de desenho em pequenos cadernos, desenvolvida entre deslocamentos, reuniões e viagens - gesto que se tornou central em sua pesquisa. Viveu em São Paulo por 11 anos, onde a aprofundou. Após a venda da empresa, mudou-se para Florianópolis, passando a se dedicar integralmente ao desenho e à natação em águas abertas, o que aproxima sua produção de uma dimensão corporal e rítmica. Atualmente vive em Salvador, BA, onde desenvolve uma pesquisa em desenho atravessada pelas relações entre mar, corpo e inconsciente. Participou de exposições individuais e coletivas em cidades como Porto Alegre, São Paulo e Salvador e integrou, em 2011, a publicação Ilustration Now! Vol. 4 (Taschen).

Sobre o Jovani Bórttoncéllo

Jovani Bórttoncéllo é arquiteto e urbanista, ator e poeta, com uma prática que atravessa também a fotografia, a arte, a cenografia e a curadoria. Com mais de duas décadas de trajetória ligada à construção civil, cresceu entre obras e, aos 16 anos, iniciou sua atuação profissional na construtora da família, percorrendo diferentes etapas do desenvolvimento de empreendimentos, dos projetos e da obra à gestão, à direção criativa e à sociedade da empresa. Essa trajetória entre diferentes linguagens construiu uma maneira própria de compreender o espaço, o corpo e a experiência humana. Em 2026, integrou a equipe vencedora do concurso que levou o Rio Grande do Sul à Bienal Brasileira de Arquitetura, com um trabalho atravessado pela memória, pelo pertencimento e pela atmosfera. Atualmente vive em São Paulo e, à frente de seu estúdio, desenvolve uma arquitetura que nasce da escuta, da memória, do lugar e das cenas que antecedem a forma, transformando histórias, sensações e modos de viver em conceito, matéria e atmosfera.

SERVIÇO

O QUE: exposição Te Espero no Quarto, de Chico Baldini

QUANDO: 15 de outubro, (15/10) às 18h à 15 de novembro

ONDE: Espaço Cultural do Hotel Praça da Matriz (HPM), Largo João Amorim de Albuquerque, 72


Mariana Bertolucci