Agnès Varda, em diálogo com a sua produção cinematográfica, em Porto Alegre

  • Cultura
  • 01/09/2026 - 19:07
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Fotografia AGNÈS VARDA Cinema reúne mais de 200 imagens, muitas inéditas, feitas em viagens pela China, por Cuba e pelos EUA. Em diálogo com a exposição, a Cinemateca Capitólio se junta para receber o comentário musical da cantora e compositora Juçara Marçal inspirada na obra de Varda. Inauguração ocorre no dia 12 de setembro, às 14h, na Fundação Iberê. No dia da abertura, a entrada é gratuita

Nome central da história do cinema, com filmes que marcaram gerações, Agnès Varda (1928–2019) também é autora de uma extensa produção fotográfica, tendo inclusive começado sua carreira como fotógrafa. Ao longo dos anos, consolidou-se como cineasta, mas a fotografia continuou presente em sua trajetória, seja em seus filmes, seja nas instalações artísticas que produziu no século 21. Essa faceta de sua obra, ainda menos conhecida pelo público, será apresentada na mostra Fotografia AGNÈS VARDA Cinema, que abre no dia 12 de setembro (sábado), na Fundação Iberê.



A exposição reúne cerca de 200 fotografias tiradas por Varda, principalmente entre as décadas de 1950 e 1960. O conjunto traz imagens clicadas em viagens, incluindo registros inéditos na China, em 1957, fotos em Cuba, no contexto pós-revolução, e nos EUA, onde a artista documentou os Panteras Negras. Há ainda fotos feitas em Paris, como as de uma peça encenada pelos Les Griots, primeira companhia de teatro negro na cidade. Em diálogo, a mostra apresenta trechos de filmes da autora, enfatizando como o comprometimento social, o olhar afetuoso e o humor caracterizam a sua produção.



Concebida e realizada pelo Instituto Moreira Salles, pelo Institut Pour La Photographie e pelo Cine Tamaris, a exposição foi apresentada pela primeira vez, em 2025, no IMS Paulista, como parte da Temporada França-Brasil. Agora, abre em Porto Alegre, em sua primeira itinerância pelo Brasil. A curadoria é assinada por Rosalie Varda, diretora do Ciné-Tamaris e filha da cineasta, e João Fernandes, diretor artístico do IMS, com assistência de Horrana de Kássia Santoz, curadora vinculada à diretoria artística do IMS.



No dia da inauguração, às 15h30, a curadoria promove uma visita mediada, seguido de uma conversa no auditório da Fundação Iberê (com tradução simultânea) com os curadores Rosalie Varda e João Fernandes, Marcos Mello, curador da Cinemateca Capitólio e a cantora e compositora Juçara Marçal.



Na entrada da exposição, o público encontra um painel composto por retratos de Varda segurando diferentes tipos de câmeras. As imagens captam diversos momentos da vida da cineasta, mostrando como a experimentação de linguagens e de diferentes técnicas esteve presente em sua carreira. Na transição da virada do analógico para o digital, inclusive, Varda rapidamente aderiu ao novo formato, defendendo que, por serem pequenas e leves, as câmeras digitais ajudavam a captar a espontaneidade.



Em seguida, a mostra retoma o começo da trajetória da artista, com fotografias que Varda exibiu em uma pequena exposição, em 1954, no pátio da casa onde morava, na rua Daguerre, em Paris. As imagens incluem registros de paisagens, naturezas-mortas, além de objetos cotidianos, como as batatas, elemento posteriormente muito presente em sua filmografia. Ainda deste período, são exibidas fotos feitas durante a filmagem do seu primeiro longa-metragem, La Pointe-Courte (1954), centrado na relação amorosa de um casal, ambientado numa vila de pescadores, no sul da França.



Entre 1948 e 1961, Varda trabalhou como fotógrafa oficial no Festival de Avignon e com o Teatro Nacional Popular. A exposição aborda esse período inicial de sua carreira, com destaque para registros da peça Papa Bon Dieu, encenada em 1958 pela Compagnie d'Art Dramatique des Griots, conhecida como Les Griots, primeira companhia de teatro negro em Paris, fundada, entre outros nomes, pela cineasta Sarah Maldoror. Com texto de Louis Sapin e um elenco majoritariamente negro, a peça apresentou a trama de um catador que, dado como morto, retorna à vida e é confundido com a volta de Deus à Terra. As fotos de Varda captam o elenco em ação, a composição das cenas e outros detalhes da peça. Além do conjunto de fotografias, é exibido o programa original do espetáculo.



Grande parte da exposição é dedicada às viagens de Varda. Em suas andanças pelo mundo, acompanhou grandes mudanças da segunda metade do século XX, com um olhar atento ao contexto político, mas também às sutilezas e aos detalhes, com interesse especial pelas mulheres e crianças. Há imagens produzidas em 1956, no sul da França, principalmente em Marselha, cidade marcada pela presença de imigrantes árabes e africanos, e em Portugal, onde retratou a comunidade pescadora de Nazaré.



Nesse núcleo, um dos principais destaques é a série que Varda produziu na China, em 1957, quando viajou ao país como parte de uma delegação francesa. Grande parte inéditas, sendo exibidas pela primeira vez ao público, as fotografias foram tiradas após a Revolução Maoísta e antes da Revolução Cultural. Por cerca de dois meses, Varda percorreu cidades, portos, fábricas, templos e comunidades rurais, registrando cenas cotidianas, personagens comuns e as transformações em curso no país. Sua câmera também focou bastante nas crianças, vistas por Varda como a esperança do futuro de um país em revolução.



Para a curadoria, as imagens feitas na China “são registros essenciais de um encontro entre política, cultura e subjetividade, atravessados por contingências históricas. Elas não capturaram uma grande narrativa de uma revolução, mas elaboraram uma modernidade em construção: fragmentos de vidas comuns, expressões de resistência cultural”.



A exposição também traz fotos clicadas em Cuba, em 1962, onde a cineasta esteve a convite do governo do país. Munida de duas câmeras fotográficas, uma Rolleiflex e uma Leica, Varda produziu, a partir das imagens tiradas, o curta-metragem Saudações, cubanos! (1963). A mostra exibe tanto as fotografias quanto o próprio filme, que também estará em cartaz no cinema. Entre os registros feitos, estão imagens de colheitas de açúcar, cerimônias de santería, além de retratos de figuras históricas, como a cineasta Sara Gómez e o próprio Fidel Castro, fotografado casualmente em uma praia. Há ainda imagens coloridas, exibidas pela primeira vez.



Em suas incursões pelo mundo, Varda também viveu entre 1967 e 1968 na Califórnia, nos Estados Unidos, com seu marido, o diretor Jacques Demy, que filmava em Hollywood. No novo país, encontrou um ambiente marcado pelos protestos contra a Guerra do Vietnã e pelos movimentos de resistência política e cultural. A exposição apresenta imagens produzidas pela artista nesse período, com destaque para sua documentação dos Panteras Negras. Em 1968, em Oakland, Varda documentou o julgamento de Huey Newton, cofundador do partido. A mobilização em torno do processo judicial transformou-se em um encontro público de denúncia da violência policial e de afirmação política do movimento negro. Com uma câmera 16 mm, Varda registrou a dimensão histórica da manifestação, como também os pequenos gestos, rostos e detalhes, resultando no filme Os Panteras Negras, também exibido no cinema do centro cultural.



Além da produção das décadas de 1950 e 1960, a exposição apresenta uma obra mais recente, a instalação Instants arrêtés (Instantes parados) (2012), na qual a artista investiga o movimento inverso de sua prática habitual, partindo do cinema para a fotografia. Para produzir essa instalação, Varda selecionou uma cena do seu filme Sans toit ni loi (Os renegados) (1985) e extraiu dez fotogramas consecutivos, correspondentes a menos de um minuto de ação. Na instalação, os fotogramas são exibidos ao lado do trecho original do filme, articulando as tensões entre fotografia e cinema.



Segundo a curadora Rosalie Varda, a obra é “uma espécie de síntese, a prova de que, até os últimos anos de sua carreira, Varda permaneceu inquieta, sempre em busca de novas formas de olhar, de pensar e de compartilhar as imagens”.



Em cartaz até 28 de fevereiro de 2027, a mostra reforça a importância de Varda como uma produtora e pensadora da imagem, com obras que investigam diferentes suportes artísticos, articulando humor, política e ternura, a partir de um processo de escuta e abertura ao outro.



Comentário Musical

No dia 13 de setembro (domingo), a obra de Varda será tema de uma sessão com comentário musical, de Juçara Marçal, na Cinemateca Capitólio. A cantora e compositora conduzirá duas apresentações, às 17h e às 20h, ao lado de Kiko Dinucci (guitarra e sampler) e Juliana Perdigão (clarone, clarinete e sampler). O repertório inclui composições próprias de Juçara e canções de artistas que dialogam com a obra de Varda. O programa é resultado de uma concepção conjunta das áreas de Música e Cinema do IMS, da curadoria da exposição e de Juçara Marçal.



Também serão exibidos os curtas L’Opéra Mouffe (A Ópera-Mouffe) (1958) e Black Panthers (Os Panteras Negras) (1968), ambos dirigidos por Varda, em cópias restauradas. As exibições serão intercaladas por apresentações dos músicos, que interpretarão canções em diálogo com as imagens e os temas dos filmes. Serão projetadas, ainda, fotografias de autoria de Varda, com o trio tocando simultaneamente.



SERVIÇO

Exposição Fotografia AGNÈS VARDA Cinema

Abertura: 12 de setembro | Sábado | 14h

Visitação: 28 de fevereiro de 2027

3º andar | Fundação Iberê

No dia da abertura, a entrada é gratuita



Visita mediada com a curadoria

12 de setembro | Sábado | 15h30



Conversa com os curadores
12 de setembro | Sábado | 16h
Onde: Auditório da Fundação Iberê
Evento com tradução simultânea



Comentário musical com Juçara Marçal
13 de setembro | Domingo | 17h e 20h
Onde: Cinemateca Capitólio (R. Demétrio Ribeiro, 1085 – Centro Histórico, Porto Alegre/RS)


Fundação Iberê

Avenida Padre Cacique, 2000 – Bairro Cristal, Porto Alegre/ RS

Horário de funcionamento: Quinta a domingo e feriados, das 14h às 18h (última entrada)
Ingressos: R$10 meia-entrada, R$20 inteira e R$30 dois ingressos



Informações para a imprensa:
Roberta Amaral