Museu do Paço, em Porto Alegre, recebe Leo Stockinger e sua exposição Depois de 1000 anos

  • Cultura
  • 25/07/2026 - 20:43
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A exposição de arte Depois de 1000 anos será aberta no próximo dia 1º de agosto (sábado), às 11h. No próximo mês, o escultor Leo Stockinger ocupará três salas expositivas do Museu do Paço, de Porto Alegre. Com a curadoria de Bernardo José de Souza, a terceira individual do porto-alegrense radicado há 20 anos em Sydney, na Austrália, apresentará sete obras de grande porte em madeira e aço, construídas manualmente por Leo nos últimos meses durante a temporada em que está na cidade.
Há mais de uma década, o artista concebeu em seus cadernos de estudos os desenhos de quase todas as esculturas que acabam de ganhar vida e medem de 2 a 3 metros de altura cada uma. O segundo andar do Paço Municipal será dividido em três atos. Na primeira sala, obras de grandes formatos e uma iluminação dramática conduzirão o espectador. O segundo ato apresenta mais duas esculturas. “A madeira agora resiste, esta tensionada em seu momento de simbiose com o aço”, complementa o artista.
O terceiro ato apresenta uma peça em que o jogo de luz assume o tempo como matéria. A escultura passa a ter um papel ativo. Como sugere o título, Depois de 1000 anos é sobre a própria resistência da matéria em um mundo de transformações e de ruídos, cada vez mais nebuloso, que bebe na fonte do clássico do cinema italiano Deserto Rosso de Michelangelo Antonioni.
Cada uma das sete obras de Leo tem presença e vida própria. Formado em 2009 pela National Art School de Sydney, o escultor gaúcho traz em sua obra o peso da mão humana sobre os materiais em que manipula tudo: mármore, colas, pregos, ferro, bronze, aço e madeira. Leo traz a reflexão da natureza humana refém do tédio contemporâneo. Corpos atravessados por violência, angústia e frieza metálica. Ele equilibra forças brutas, criando estruturas límpidas e sólidas em um universo cada vez mais transitório e solitário, em que a matéria oprime a realidade com plasticidade exuberante e questionamento sufocado. O escultor borda aço e sentimento, como tecidos enrijecidos pelo tempo e o pensamento. Força, imponência, desejo e solidão transbordam esse trabalho vestindo como heróis contemporâneos imensas toras de madeiras que já foram postes de rua. No trabalho mais recente de Leo está também a técnica apurada do avô Xico Stockinger, com quem aprendeu a soldar com personalidade e orgulho, misturando materiais e linguagens.
“As esculturas de Leo Stockinger não falam apenas do presente, se antecipam ao tempo e carregam toda uma história de vida, humana e inumana, para o futuro. Parecem inteligentes, são capazes de se reproduzir, transpiram sangue desde uma engrenagem ou biologia ciborgue. São semimáquinas, e ainda assim possuem alma; todavia orquestram uma dramaturgia de silêncio, dor e sexo”, contextualiza Bernardo.
A mostra toma conta do espaço e quem está por ali sente-se confrontando um território alheio, um mundo ácido e divino de matéria viva em sua integridade. Como explica o escultor: “A madeira ergue-se altiva, como o elemento vivo que é desapropriada da própria natureza. Explorada, agora assume nova vida. Aliada ao metal, aço carbono, como uma força estrutural, uma armadura funcionando como um exoesqueleto. A força tensional do metal em toda sua glória, a junção pela solda aparente, o gesto presente em cada pingo de aço derretido.”
Suas esculturas carregam essa condição: são corpos que parecem emergir, resistir ou se fragmentar — como se ainda estivessem em processo de tornar-se algo. A matéria, em sua obra, não é passiva. Ela reage, impõe limites e revela tensões. E é nesse embate que a forma acontece. A concretude da matéria, a linguagem intrínseca dos elementos e ocupação do espaço são a atmosfera dessa exposição que poderá ser visitada até 31 de agosto.
Por Mariana Bertolucci
Sobre o artista
Nascido em Porto Alegre (RS) em 1980, radicado na Austrália desde 2005, Leonardo Stockinger é um escultor formado em 2009 pela Escola Nacional de Arte em Sydney, na Austrália. Em 2012 formou-se no TAFE como técnico em fabricação de metais e posteriormente se qualifica como operador de alto risco em segmentos ligados a construção civil. Leo cresceu cercado por arte. O avô, Francisco Stockinger, artista austríaco-brasileiro que é um dos principais escultores modernos de sua geração, o influenciou profundamente. Desde cedo, imerso no ambiente mágico do ateliê do avô, testemunhava formas surgirem do gesso, da argila, do metal, da madeira e do bronze — não apenas em sua dimensão técnica, mas também simbólica. Em 2025, apresentou a exposição Vísceras-Corpo e Existência, em Porto Alegre e Sydney.
Sobre o curador, crítico de arte e professor
Ex-Diretor Artístico da Fundação Iberê Camargo (2017/19), em Porto Alegre, Brasil, atua como curador independente residente em Madri. Fez parte da equipe curatorial da 19ª Bienal de Artes Visuais SESC Videobrasil, (SP), 2015, e foi membro da equipe curatorial da 9ª Bienal do Mercosul, 2013. De 2005 a 2013 atuou como Diretor do Departamento de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, Brasil. Entre as exposições: Sex in Space, na Isla Flotante (2025), em Buenos Aires; Febre da Selva Elétrica, Vivian Caccuri (2025), na Galeria Municipal do Porto; The Disagreement: a theatre of statements (2024) e The Devil to pay in the backlands (2022), ambas no NKW, Neuer Kunstverein Wien; Film as Muse (2021), no Salzburger Kunstverein; An Exhibition with works by (2020), no Kunstinstituut Melly; Beleza e Devastação (2019), no Solar dos Abacaxis, Rio de Janeiro; Unanimous Night (2017) no CAC, Contemporary Art Center, em Vilnius; e A Mão Negativa (2015), no Parque Lage, Rio de Janeiro.

SERVIÇO:
O QUE: Abertura da exposição Depois de 1000 anos, de Leo Stockinger
QUANDO: Dia 1º de agosto, às 11h, em cartaz até 31 de agosto, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h
ONDE: Museu de Arte do Paço (Praça Montevidéu, 10, Centro Histórico)


Mariana Bertolucci