Histórias de seis de mulheres que mantém viva a tradição doceira de Pelotas ganham fotolivro e documentário

  • Cultura
  • 21/05/2026 - 10:58
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‘As Mulheres Por Trás dos Doces’ será lançado no dia 27 de maio, às 18h30, no Museu do Doce da UFPel, seguido de uma roda de conversa com as guardiãs dessa herança

A cidade de Pelotas, conhecida como a "capital nacional do doce", possui uma herança doceira que se desdobra em dois principais segmentos: os doces de bandeja e os doces de frutas. Os doces de bandeja são frutos da influência da elite charqueadora do século XIX e da troca comercial entre Pelotas e o Nordeste brasileiro, que envolvia a exportação de charque para os engenhos nordestinos e a importação de açúcar produzido por escravizados.

Caracterizados pela sua sofisticação e beleza, os doces de bandeja foram desenvolvidos nas cozinhas das grandes casas da época e refletem um patrimônio cultural de grande valor, que combina técnicas tradicionais com uma apresentação visualmente rebuscada. Eles eram produzidos por mulheres negras escravizadas, que trabalhavam lado a lado com as senhoras das famílias charqueadoras. Essas mulheres eram responsáveis por transmitir e aprimorar as técnicas de doçaria, adaptando as receitas ao gosto local e perpetuando o saber-fazer doceiro de geração em geração. Assim, os doces de bandeja de Pelotas são um testemunho da habilidade e criatividade dessas mulheres, que contribuíram significativamente para a identidade cultural da região.

Já os doces de frutas têm suas raízes nas comunidades rurais da região e na imigração europeia. Produzidos em tachos de cobre e utilizando frutas locais, esses doces representam uma tradição de produção artesanal profundamente enraizada no cotidiano. As doceiras desempenham um papel central nessa tradição, transmitindo de geração em geração os saberes e fazeres necessários para a elaboração desses doces.

Perpetuar as técnicas ancestrais do famoso doce de Pelotas e manter vivas as práticas vão além da preparação dos ingredientes e da produção. O fotolivro ‘As Mulheres por trás dos Doces’ revela, por meio de uma perspectiva artística e sensível, um profundo vínculo entre identidade, memória e comunidade de seis guardiãs desta herança: Claudete Lessa, Sônia Mara Farias, Marli Bandeira, Lígia Maria Ribeiro, Cibele Costa e Cíntia Costa.

Produzida pelas fotógrafas Andressa Santos e Gabriela Cunha, a obra de 128 páginas será lançada no dia 27 de maio (quarta-feira), às 18h30, no Museu do Doce da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) com as presenças das doceiras. Além do fotolivro, a equipe estreia no evento o documentário com depoimentos de Claudete, Sônia, Marli, Ligia, Cibele e Cíntia, e de Noris Leal, diretora do Museu do Doce, aprofundando a história dessas mulheres, das regiões em que vivem e das tradições que preservam.

“Buscamos dar visibilidade para mulheres de diferentes contextos e trajetórias, incluindo doceiras que, muitas vezes, ficam fora dos espaços mais reconhecidos institucionalmente ou comercialmente, e ampliando o olhar sobre quem sustenta essa tradição no cotidiano, especialmente mulheres negras, periféricas, rurais ou que mantêm processos mais artesanais”, afirmam as fotógrafas.

Para Noris, “o fotolivro é um manifesto de reverência àquelas que o sistema teima em esconder. Ele não se contenta em mostrar o produto; ele revela a produtora. Registra o cotidiano daquelas que, muitas vezes invisibilizadas pela desigualdade de acesso, sustentam e dão continuidade à tradição da cidade. Mais do que receitas, elas carregam a memória. Para além das receitas, o que se vê é o DNA de uma cultura, a escolha cuidadosa dos ingredientes, o ponto exato da calda e a alma de mulheres que, com suas mãos, garantem que a identidade de uma região permaneça viva e autêntica, apesar de todas as ausências e dificuldades.”

O fotolivro “As Mulheres por trás dos Doces” pode ser adquirido apelo Instagram @portrasdosdoces, por R$70,00.

Histórias de tradição e resistência

Claudete Lessa é doceira quilombola nascida na zona rural de Canguçu, no extremo sul do Rio Grande do Sul. Liderança no Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão, atua como coordenadora da Cozinha das Mais Velhas, um espaço de resistência cotidiana em que práticas alimentares se entrelaçam com saberes ancestrais, redes de cuidado e estratégias coletivas de enfrentamento à insegurança alimentar na cidade de Pelotas.

Sônia Mara Farias é outra potente liderança no Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão e atua com Claudete na coordenação da Cozinha das Mais Velhas. Como articuladora política, cozinheira e conselheira, estabelece relações de aprendizado profundo com os mais jovens, compartilhando saberes com generosidade, firmeza e alegria.

Marli Bandeira é doceira, natural de Canguçu, no extremo sul do Rio Grande do Sul, com longa trajetória de vida e trabalho em Pelotas. Liderança no Kilombo Urbano, atua como mediadora de conflitos e inspira formas cuidadosas e eficazes de comunicação entre as pessoas.

Lígia Maria Ribeiro foi uma das fundadoras da Cooperativa dos Doceiros de Pelotas, na década de 1980, que se tornou fundamental para a organização e o reconhecimento da produção local. Em um movimento coletivo, protagonizado majoritariamente por mulheres e articulado com o poder público, foram organizadas feiras em diferentes regiões do estado e do país. Esse esforço contribuiu diretamente para a consolidação da cidade como “Capital Nacional do Doce”, para o fortalecimento da Fenadoce como evento cultural e econômico e para a conquista de um espaço permanente de comercialização no centro da cidade, hoje conhecido como a Rua do Doce, localizada no calçadão de Pelotas.

Cibele Costa e Cíntia Costa são nora e neta, consecutivamente, de Seu Jordão e Dona Eva, fundadores da Doces Vô Jordão, uma empresa familiar com raízes artesanais fundada no final da década de 1960. Especializada em doces tradicionais, a marca utiliza frutas cultivadas pela própria família, destacando-se pela produção de passas de pêssego e doces cristalizados.

O Projeto As Mulheres por trás dos Doces é realizado com recursos do Edital SEDAC/PNAB RS n° 27/2024 - ARTES VISUAIS.

SERVIÇO
Lançamento do fotolivro e documentário “As Mulheres por trás dos Doces”
Autoras: Andressa Santos e Gabriela Cunha
Quando: 27 de maio | Quarta-feira | 18h30
Onde: Museu do Doce da UFPel, no endereço (Pr. Cel. Pedro Osório, 8 - Centro, Pelotas - RS)

FICHA TÉCNICA
FOTOLIVRO
Fotógrafas:Andressa Santos (@a_____ndressa) e Gabriela Cunha (@gabrielalcunha)
Doceiras: Cíntia Costa e Cibele Costa (Doces Vô Jordão), Claudete Lessa, Marli Bandeira e Sônia Mara Farias (Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão) e Lígia Maria Ribeiro (Cooperativa dos Doceiros de Pelotas)
Prefácio: Noris Mara P M Leal
Projeto Gráfico: Gabriela Cunha
Revelação e Digitalização: Lab:Lab Analógico - Laboratório Fotográfico
Roteiro de Audiodescrição: Débora Haupt
Consultoria de Audiodescrição: Luciane Molina

PROJETO - AS MULHERES POR TRÁS DOS DOCES (@portrasdosdoces)
Produção Executiva: Gabriela Cunha e Gustavo Cunha (fuzzz lab)
Cinegrafistas: Andressa Santos e Gabriela Cunha
Edição de Vídeo: Gustavo Cunha
Técnico de Mixagem de Som: Gustavo Cunha
Trilha Sonora: Gustavo Silveira
Designer Gráfico: Gabriela Cunha
Social Media: Andressa Santos
Gestor de Tráfego Pago: Nicholas Sonvezzo
Assessoria de Imprensa: Roberta Amaral

Agradecimentos: Museu do Doce – UFPel, Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão, Cooperativa dos Doceiros de Pelotas e Doces Vô Jordão

Teaser do documentário: https://drive.google.com/drive/folders/1ArrMANnPZEH2xrUAMknujjkyW1SUk8CB

Div: Roberta Amaral
cred: Gabriela Cunha