Neuropsicanálise e Neurociência Afetiva como caminhos para auxiliar em traumas e perdas pessoais

  • Saúde
  • 10/02/2026 - 23:40
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A história da psicanalista Drika Shak é atravessada por uma experiência marcante de perda e reconstrução. Aos 13 anos, ela viveu um trauma profundo: a morte repentina da mãe durante o parto da irmã, que também não sobreviveu. Sem recursos emocionais ou rede de apoio para elaborar o luto, a adolescente fez um pacto silencioso consigo mesma — transformar a dor em propósito. Ali nascia o compromisso de dedicar a vida ao estudo da mente humana, dos afetos e da subjetividade.

Anos depois, em uma busca radical por sentido, Drika deixou faculdade, trabalho, família e um grande amor para viver por 14 anos em um templo budista, em Três Coroas (RS). Nesse período de recolhimento e aprofundamento interior, construiu vínculos fundamentais: tornou-se mãe de Lucas e companheira de Ogyen Shak, tibetano com quem fundou o Espaço Tibet, referência cultural e gastronômica no estado e no Brasil, por ser o primeiro em sua categoria. O sucesso no empreendedorismo, no entanto, veio acompanhado de uma sobrecarga intensa. Traumas não elaborados, lutos precoces e a pressão constante cobraram um preço alto: problemas graves de saúde, incluindo tumor maligno, dores crônicas e distúrbios gastrointestinais.

“Meu corpo passou a falar o que eu não consegui simbolizar por muitos anos”, relembra.

A virada aconteceu por meio da análise pessoal. O processo terapêutico trouxe não apenas recuperação física e emocional, mas também clareza para uma transição definitiva: sair do empreendedorismo e retomar o compromisso feito ainda na adolescência. Hoje, aos 53 anos, assintomática e vivendo a menopausa com saúde, Drika inicia um novo capítulo como psicanalista clínica, com uma escuta que passa pela experiência real de luto, adoecimento e reconstrução.

Sua prática é fundamentada na Neuropsicanálise, abordagem que integra a psicanálise às descobertas das neurociências, especialmente da Neurociência Afetiva — campo desenvolvido a partir dos estudos do neuropsicanalista Mark Solms e de pesquisadores como Jaak Panksepp. Essa perspectiva parte do princípio de que as emoções são centrais na organização psíquica e que traumas, perdas e sobrecargas emocionais impactam diretamente o sistema nervoso, podendo se manifestar também no corpo.

A neurociência afetiva demonstra que emoções como medo, tristeza, luto, apego e cuidado possuem bases neurais específicas e cumprem funções essenciais de sobrevivência. Quando o luto não pode ser elaborado — como em perdas súbitas, múltiplas ou precoces — o cérebro pode permanecer em estado de ameaça, gerando ansiedade persistente, depressão, dissociação, culpa excessiva e sensação de vazio. A Neuropsicanálise atua justamente na integração dessas experiências, ajudando a transformar memórias traumáticas em narrativas simbólicas, fortalecendo a regulação emocional e permitindo que o sujeito saia do modo de sobrevivência.

Pessoas altamente sensíveis (PAS)
Essa abordagem mostra-se especialmente potente no cuidado de Pessoas Altamente Sensíveis (PAS) — traço de personalidade presente em cerca de 15 a 20% da população. Pessoas PAS vivenciam o mundo com maior intensidade emocional e sensorial, apresentam empatia elevada e profunda capacidade de processamento afetivo. Embora não se trate de doença ou transtorno, esse traço pode tornar essas pessoas mais vulneráveis a traumas, lutos e sobrecargas emocionais, especialmente em ambientes pouco acolhedores.

Na clínica, a Neuropsicanálise valida a sensibilidade como recurso, não como fragilidade. Ajuda a diferenciar o que é dor própria do que é dor absorvida do ambiente, trabalha limites psíquicos e favorece a integração saudável de emoções intensas. Para Drika, que também se reconhece como uma pessoa altamente sensível, essa escuta é atravessada por empatia genuína e rigor teórico.

“Não falo em superação, mas em apropriação da própria história. Aquilo não deixa de existir, mas nos torna maiores do que a dor”, afirma.
Atualmente, Drika Shak atende adultos de forma online por meio da Neuropsicanálise Clínica e é graduanda em Psicologia. Sua atuação une ciência, escuta sensível e vivência. “Escuto com o coração e sustento meus pacientes como um dia precisei ser sustentada. Honro, todos os dias, o compromisso que fiz aos 13 anos.”

Foto Arquivo Pessoal
Via Serendipity Edições

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