Com mais de um século de história, o Jockey Club do Rio Grande do Sul (JCRGS) consolidou-se não apenas como palco do turfe, mas como um dos espaços culturais e sociais mais emblemáticos de Porto Alegre.
Ao longo das décadas, o Jockey acolheu a emoção das corridas, episódios que entraram para o imaginário local. Entre as presenças ilustres do passado, nomes de peso da política nacional frequentaram assiduamente as arquibancadas, como Getulio Vargas e Oswaldo Aranha, figuras carimbadas nas reuniões turfísticas.
A lista de visitantes notáveis também inclui artistas e produções internacionais. Em 1999, duas das maiores bandas do rock mundial, Metallica e Kiss, subiram ao palco montado na área interna da pista, atraindo multidões. Na virada dos anos 2000, o Jockey virou locação de um comercial da Pepsi, que trouxe os craques argentinos Verón e Saviola para gravações sob direção da produtora porto-alegrense Zeppelin. Já no cinema, o clube teve papel central como cenário do premiado filme Tinta Bruta, reforçando seu vínculo com a cultura contemporânea.
Mas nenhuma história chama tanto a atenção quanto a manhã de 2015, quando a pista serviu, improvavelmente, como pista de pouso. Um monomotor vindo de Torres, após perder potência sobre a capital, realizou um pouso de emergência em pleno hipódromo — sem feridos e com grande repercussão.
O CHARME DO DRESS CODE E A TRADIÇÃO INGLESA
Entre os eventos que moldam a identidade do Jockey, poucos têm o charme do Grande Prêmio Bento Gonçalves. Conhecido pelos trajes elegantes do público — chapéus, fascinators e produção digna de tapete vermelho —, o GP carrega heranças diretas da aristocracia britânica. O dress code remete à presença da realeza nas corridas de Ascot desde o início do século XIX, quando os chapéus femininos passaram a simbolizar status e refinamento. No JCRGS, esses elementos transformaram o hipódromo em uma verdadeira passarela social, lugar onde a exuberância era não apenas permitida, mas celebrada.
Criado em 1909, o Grande Prêmio Bento Gonçalves é uma das provas mais antigas do turfe brasileiro e a mais importante competição de fundo em pista de areia no país, disputada em 2.200 metros. Classificado como Grupo 2, o Bento consagra anualmente o melhor fundista de areia do Brasil. Em 2025, chega à 117ª edição, mantendo-se como o evento mais prestigiado do calendário gaúcho.
MAIS QUE CORRIDAS: UM POLO DE EVENTOS
Além do Bento, o Jockey realiza eventos que movimentam o universo turfístico, como o Grande Prêmio Protetora do Turfe, o Ladies Day, o Turfe Gaúcho — um festival inspirado nas canchas retas do interior, com leilão de apostas e provas eliminatórias — e a Tríplice Coroa Juvenil, que fomenta a permanência de potros no prado gaúcho.
As tradicionais corridas semanais ocorrem às quintas-feiras, com cerca de sete páreos por reunião. Grandes Prêmios, por sua vez, são realizados aos finais de semana. As apostas podem ser feitas online desde meados dos anos 2000, mas o charme do guichê, do bilhete impresso e da vibração coletiva ainda mantém fiéis os apostadores tradicionais.
Graças à parceria com o Jockey Club Brasileiro, o público também pode apostar em corridas internacionais — uma experiência rara e valorizada por aficionados de todo o país.
Eventos contemporâneos com música eletrônica acontecem no JCRS - Foto: Ricardo Rimolli
UM ESPAÇO QUE SE REINVENTA
O Jockey sempre foi mais que um hipódromo. Por décadas, serviu como centro de eventos sociais, sediando casamentos, formaturas e bailes de debutantes. Nos anos 1990, recebeu shows históricos, e recentemente voltou a se abrir à cidade com programação plural: o Festival Chisme, a Expochurrasco, a festa de música eletrônica Levels.
Hoje, o clube busca ampliar sua estrutura gastronômica — atualmente restrita ao ecônomo do Salão Preto — e trabalha para formar parcerias que transformem o local em um centro de entretenimento multifuncional, a exemplo do que ocorre com o Jockey do Rio de Janeiro.
Protectora do Turfe, na forma clássica como era escrito - Foto: Ricardo Rimolli
BREVE HISTÓRIA DO JCRGS
A história do turfe em Porto Alegre começa em 1856, com a chegada do puro-sangue inglês Avon, marco do desenvolvimento da criação de cavalos de corrida. Em 1872, a Várzea, nome popular à época dos terrenos do Parque Farroupilha, tornou-se cenário das primeiras corridas em pista circular. O primeiro hipódromo, fundado em 1877, consolidou-se como Prado da Boa Vista em 23/5/1880, recebendo inclusive a visita da Princesa Isabel em 1885, e funcionou até 1907.
O Prado Rio-Grandense foi inaugurado em 6/2/1881, no Menino Deus, ativo até 1909 e palco da primeira disputa do Grande Páreo Bento Gonçalves. O Prado Navegantes, aberto em 1891 e reinaugurado em 1894, sofreu com enchentes e encerrou em 1906. Em 25/3/1894, abriu o Prado Independência, que se tornou o principal da cidade por sua localização central e instalações modernas.
No final do século XIX, os prados eram administrados por sociedades anônimas voltadas ao lucro, gerando instabilidade. Em 1899, surgiu o Derby Club; outras entidades, como o Turf Club (1907) e o Turf Rio-Grandense, tiveram vida curta. A necessidade de união levou, em 7/9/1907, à fundação da Associação Protectora do Turf, com o objetivo de moralizar e fortalecer o esporte.
Em 1909, foi instituído o Grande Prêmio Bento Gonçalves, hoje a principal prova do turfe gaúcho. Em 1944, após votação entre associados, a Protectora passou a se chamar Jockey Club do Rio Grande do Sul.
O projeto do Hipódromo do Cristal teve início em 1922, a pedra fundamental foi lançada 23 anos depois, e a inauguração ocorreu em 21/11/1959. Os pavilhões, projetados pelo uruguaio Román Fresnedo Siri, tornaram-se referência da arquitetura moderna e foram tombados em 2005.
Atualmente, o Jockey Club conta com cerca de 4.000 associados e promove corridas às quintas-feiras, preservando a tradição iniciada em 1856 e impulsionando o turfe como parte essencial da história esportiva da capital.
TRADIÇÃO E ABERTURA PARA SAUDÁVEIS E LONGEVAS PARCERIAS
O Jockey Club do Rio Grande do Sul é um patrimônio esportivo e cultural que atravessa gerações. Mantém viva a tradição com mais de cem anos no país, enquanto abre as portas para novos públicos e eventos. Seu compromisso é preservar o turfe, valorizar sua arquitetura icônica e assegurar que este espaço siga pulsante, acolhendo tanto associados quanto visitantes.
Jockey Club Rio Grande do Sul
@jockeyclubrs