Em busca da criação
Há muito tempo, os artistas buscam na arte uma expressão que a realidade não consegue lhe proporcionar.
Fatos, pessoas, histórias e aspectos do cotidiano transformam-se em temas de suas obras.
Inspirada por um grupo de leitura de Marcel Proust, que há 18 anos se reúne em um típico café portenho, Ita Stockinger escolheu uma figura feminina marcante desses encontros literários para criar seus oito retratos - um quadro a mais que os sete volumes da obra clássica proustiana, Em Busca do Tempo Perdido - na exposição "Uma metáfora e múltiplos sentimentos", exibida no projeto Portas para a Arte, da 14° Bienal do Mercosul, e vem agora seguir sua trajetória de exibições no interior do Rio Grande do Sul, começando por Bagé, terra natal da artista.
A personagem em tela tem pouca participação visual no documentário O Tempo Perdido (2020), dirigido pela argentina
María Alvarez, mas captura imediatamente o olhar da artista. Desde o instante em que surge no filme, ela faz uma pergunta que pode ser essencial tanto para a alma do livro quanto para essas pinturas: "Com quem dialoga?". Este enredo em preto e branco desperta, além do desejo de olhar, a vontade de criar. Assim como no filme e na leitura do livro, a pintura de Ita Stockinger revela, quadro a quadro, como uma espécie de plano sequência, os traços e ângulos da personagem.
Essas obras que vemos na galeria também saíram das páginas de Proust, num ato de dupla poeticidade. Nas telas, o tempo da observação, da lembrança dos gestos da personagem e do próprio tempo, se dilui. A artista busca essa criação, essa necessidade de ir além da superfície das coisas, abrindo perspectivas para o novo por meio de sua pintura da figura do outro e de si mesma - dessa multiplicidade de personalidades rumo ao desconhecido.
Ao representar repetidamente essa mulher em suas obras, Ita Stockinger nos questiona sobre o quanto podemos nos reconhecer nela, nesse encontro frente a frente, nesse "voltar a ver" que a arte constantemente nos propõe. Além disso, ela nos desafia a refletir sobre quanto de sua própria identidade e sentimentos está presente nessas pinturas, revelando uma profunda relação entre a artista, sua obra e o universo que ela convoca.
Por André Venzon - Curador e gestor cultural
Exposição: Uma metáfora para múltiplos sentimentos
Artista Ita Stockinger
Lançamento: 10 de dezembro
Horário: 19horas
Visitação até 30 de janeiro
Endereço: Palacete Pedro Osório - Rua Tupi Silveira, 1436 - BAGÉ, RS